Relevância, conhecimento e pão quentinho “real time”
No dia 20 de junho, aconteceu em Belo Horizonte o Social Minas, um evento promovido pela Amadi (Associação Mineira das Agências Digitais) para falar sobre as Mídias Sociais. Cheguei a me inscrever, não pude ir, mas pude acompanhar por vídeo via internet, ao vivo, e no Twitter.
Num determinado momento, discutiam-se as possibilidade de uso das mídias sociais por empresas, e alguém começou a descrever o “case” de uma padaria que entrou no twitter e enviava uma mensagem cada vez que saía uma fornada quentinha. A plateia, por sua vez, twitava elogios pela criatividade e a inovação. Imagine, poder comprar o pão quente todo dia por saber a hora exata em que ele saiu? Um grande diferencial!
BakerTweet from POKE on Vimeo.
No entanto, pensei imediatamente: será que precisa de tanto? Diante das possibilidades de comunicação para um comércio tipicamente de bairro, daquele tipo em que os funcionários muitas vezes conhecem os clientes pelo nome, será que já foram esgotadas as estratégias offline para se partir para algo desse tipo? Talvez lá na Inglaterra (onde fica a padaria), mas aqui?
Em outras palavras: será que TODA empresa PRECISA usar as mídias sociais?
Mandei a pergunta pelo Twitter, e uma pessoa me respondeu: “avisar o pão quentinho real time não se resolve pelas mídias tradicionais”
Na verdade, resolve. Basta colocar uma placa na padaria dizendo “Pão quentinho saído do forno todo dia às: 6h, 7h, 8h… etc”. Entre outras possibilidades. Com isso você faz ainda mais pelos clientes: concede a eles o domínio permanente da informação. Sem plantão na frente do PC, sem checar o iphone minuto a minuto. E ainda, a solução é mais barata.
A partir dessa situação comecei a pensar o quanto toda essa empolgação com os meios digitais, e em especial com as mídias sociais, não está distorcendo a visão de profissionais e estudantes de comunicação. O baixo custo para se tornar um propagador permanente de notícias a públicos específicos ou massivos é muito sedutor, ainda mais num momento da história em que as pessoas supervalorizam ter em mãos a informação do último segundo. Mas, como planejadores da comunicação, nosso papel é escolher as melhores estratégias de acordo com cada caso. E se o processo de pesquisa e diagnóstico for feito corretamente, muitas vezes chegaremos à conclusão de que, por melhor que uma ferramenta pareça, ela não está entre as estratégias possíveis, necessárias, ou mesmo as inovadoras praquele caso. E não adianta forçar.
Existem formas bastante eficientes de se comunicar com os públicos e que geram resultados tão bons ou até melhores. Enviar twits ou atualizar um blog, por exemplo, podem parecer estratégias que vão alcançar um amplo público. Mas ainda vivemos um momento em que as pessoas que assinariam os twits da padaria são as mesmas que lêem os blogs da livraria e do supermercado, querem receber mensagens com promoções de celular e de passagens, as notícias do último segundo sobre tecnologia, assinam feeds de 50 blogs e sites sobre todo tipo de assunto e navegam enquanto ouvem música e batem papo no programa de mensagens. Neste caso, o que é melhor para uma empresa: uma informação efetiva offline que dê ao público conhecimento permanente sobre o que ele precisa pra manter um relacionamento com ela, ou uma estratégia online que exigirá manutenção constante e sempre concorrerá com muitas outras pela atenção do público?
O “real time” é uma mania atual, assim como a presença dos públicos nas redes sociais, mas nem por isso precisamos ficar procurando um maneira de entrar de qualquer jeito no jogo. Não estou dizendo que o offline, ou as “mídias tradicionais” (não gosto dessa expressão para as coisas offline, porque muita coisa online já faz parte do tradicional) sejam melhores. Nem que as mídias sociais não sejam capazes de levar aos públicos esse conhecimento específico. Quero apenas dizer que não podemos é nos render à fascinação pela tecnologia e tomá-la como substituta de outras estratégias: online e offline são mídias complementares e devem ser usados dessa forma. Não importa o quanto o mundo esteja conectado, os cartazes, folderes, murais, cartões, painéis e até aquele bilhete escrito à mão e colado no vidro do caixa ainda poderão ser, de acordo com o contexto, muito mais eficientes que uma postagem no blog mais lido do momento.
Daqui do Brasil ouvi falar daquela padaria da Inglaterra, mas provavelmente nunca vou até lá comprar um pão ou uma torta. Em compensação, fui apresentado à lanchonete do outro quarteirão da minha casa por uma pessoa que gostou muito do pão de queijo de lá e me levou. Por um tempo, passei a comprar lá todo dia, e sei que no sábado a 1ª formada de pão de queijo sai às 7h30 da manhã - mais tarde que nos outros dias. Foi a moça do caixa quem me falou.
